Mulheres em Movimento: Célia Serra

O Editorial Mulheres em Movimento apresenta hoje a última Protagonista da III Edição. Nela, foram notabilizadas as trajetórias de vida de oito cardosenses, que se destacaram a partir de suas atuações como Artesã, Sambadeira, Parteira e Professora. Durante os domingos de Abril e Maio conhecemos um pouco mais sobre a história de Antônio Cardoso/BA, já que, cada publicação contemplou mulheres da Sede e de Comunidades como Poço, Gavião, Fazenda Santa Cruz e, agora, Oleiro.

Maria Célia da Silva Serra, mais conhecida como Célia do barro, nasceu em 1963 – um ano após a emancipação política do município – e desde os 6 anos de idade produz as peças de barro – que ela chama de “louça” – utilizando a técnica que aprendeu com sua mãe para produzir tachos para peixe, panelas, xicaras, moringas e potes. É mãe de Neto, Cristiano, Rosana e Rafael e sustentou a família sozinha, desde que o pai das crianças abandonou a casa, “criei meus filhos trabalhando na roça, fazendo barro e vendendo”. Além disso, é avó de três netas e quatro netos.

Nascida e criada no Oleiro – Comunidade situada na região noroeste do território cardosense, limítrofe com os municípios baianos de Santo Estevão e Ipecaetá – é Artesã, Agricultora e Feirante, e há quarenta anos vende a louça que produz na feira de Santo Estevão, além de participar de outras na região, a exemplo daquela que acontece na Sede de Antônio Cardoso/BA, no feriado de São Roque. Sobre o matéria-prima que usa em sua produção revela que “comprava o barro em Ipecaetá e depois a gente descobriu o nosso próprio barro aqui. Meu cunhado veio fazer uma cerca e descobriu esse barro dentro da minha terra. Mas, continuo comprando um barro mais fraco em Ipecaetá e misturo com o daqui”.

Assim como a Comunidade do Poço é reconhecida como o berço cultural, o Oleiro é a referência municipal do artesanato produzido em barro, é lá onde vivem as artesãs Beata, Zabel, Lindinalva, Maria, Pina, Nevinha, Mariinha – todas elas primas de d. Célia. Os processos de produção dos itens de barro são assim descritos por ela: “a gente vai para o barreiro, ranca com enxada, chega aqui molha, tira com a mão, amassa com pé, bota numa ruma e depois corta, lisa com semente de mucunã, aí já vai deixar secar pra depois queimar no forno”.

O relato da entrevistada revela ainda que há uma divisão do trabalho para produzir as louças, enquanto as mulheres modelam e queimam as peças, aos homens é atribuída a função de pisar o barro, “a gente paga 50 reais pra pisar um bolo de barro”. De tudo que produz, considera que “a moringa e o pote são as peças que demoram mais pra ficar prontas, eu gosto de fazer prato porque é ligeiro”. Quando perguntada se gosta mais de atuar como Artesã ou Agricultora, responde que gosta muito de plantar, principalmente, aipim. Mas, seu plantio, que também tem feijão e milho, é feito somente para sua sobrevivência. É com o barro que ela negocia e fortalece sua renda.

Um dado controverso que pode ser observado nesta III Edição do Editorial é que, embora tenha sido destaque a fundamental atuação das Professoras para o desenvolvimento socioeconômico local – Oraide da Cunha, Celina Bezerra, Raimunda do Poço e Raimunda de Zeca Cacete – não se pode deixar de evidenciar que d. Célia é mais uma Protagonista que não é alfabetizada, sabendo apenas assinar seu nome, mas que, assim como d. Mira Sambadeira, não se passa com dinheiro quando estão negociando seus produtos. Durante a conversa informamos que a entrevista resultaria na publicação de um texto em site da internet, e ela, muito tranquilamente, diz “vou pedir para meu filho ler pra mim”.

Essa é mais uma história sobre mulheres extraordinárias apresentada neste Projeto, que desde 2024 vem notabilizando grandes nomes e, sem dúvida, nesta Edição dedicada às mulheres cardosenses, tantas outras poderiam integrar a lista das Protagonistas, a exemplo de d. Vadu, Marizete Lobo, Neuza de Beleco, Professora Vadinha e todas as outras que serão lembradas quando este texto estiver sendo lido. Aliás, não se pode encerrar este ciclo sem agradecer à quem nos acompanhou, fazendo leituras atenciosas, se emocionando tanto quanto quem escreve – a exemplo de Adriana Brito, da Comunidade da Queimada – ou sugerindo nomes e partilhando entre seus pares.

Agradecimentos muito especiais às Protagonistas – no caso da Professora Celina [em memória], excepcionalmente, à sua filha, Cristiane – pela acolhida à proposta e pelas entrevistas concedidas. Além delas, à Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito – na pessoa maravilhosa de Cleia, mãe de Jasmin – que viabilizou os transportes para que as entrevistas fossem realizadas e, ainda nesse setor, um abraço aos motoristas Bel, Roger e Jorge. Conforme já citados anteriormente, os apoios imprescindíveis das Secretárias Lane Lopes [Cultura, Esporte, Lazer e Turismo], Nadja Paulino [Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza], Mirian Almeida [Promoção da Igualdade Racial e Políticas para os Povos Tradicionais], Mércia Guerra [Diretora de Políticas para as Mulheres] e o Prefeito, Jocivaldo dos Anjos.

Quem sabe hajam outros momentos, ações contínuas que reverenciem essas figuras simbólicas, contribuindo para a constituição de uma memória coletiva sobre o tema. A realização de projetos como o Editorial Mulheres em Movimento – especialmente esta III Edição – proporciona muitos aprendizados, e dentre outros, estabelece e fortalece laços afetuosos que permanecerão a despeito do Tempo. É uma proposta que se torna referência, pois possibilita que o povo cardosense conheça um pouco mais sobre sua própria história. Por isso e por tudo, gratidão!

Tauan Oliveira