Mulheres em Movimento: Nildes Sena

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A Protagonista de hoje é a caçula entre quatro irmãs e quatro irmãos que nasceram em Cruz das Almas – município que integra o Recôncavo da Bahia. Filha de dona Santa – cantante reconhecida “pelas mãos de cura” – e do pandeirista José Sena – define sua família como o lugar do respeito, do amor e das palavras: “meu pai e minha mãe não era de bater, dar surra, não tinha esse modo colonial de educar, era sempre a conversa e o abraço. E entre nós, a gente evitava brigar porque se brigasse era pior, tinha que abraçar e dar um beijo, então, abraçar alguém que você tá chateado era grave”.

Nascida em julho 1968, sempre foi estimulada pela família a participar de atividades artísticas, tendo transitado entre a música, o teatro e as artes visuais. Durante a adolescência estou clarinete na Euterpe Cruzalmense, e frequentava a Casa de Cultura Galeano d´Avelírio, onde encontrou a Capoeira, aos 16 anos: “a Capoeira tem uma força muito grande nesse caminho, mudou meu modo de estar, eu refiz os caminhos a partir da Capoeira Angola”. E não poderia ser diferente, já que, de todos os movimentos, ter sido aluna do Mestre João Pequeno é dos mais importantes de trajetória.

Artista multifaceta, é arteterapeuta, musicista, artista visual, atriz, performer – com destaque para a animação em perna de pau – e, no momento, tem um saxofone que “não toca tanto quanto gostaria”. Há ainda um outro campo onde sua atuação tem sido luminosa e, certamente, suas formações artísticas e o curso de Magistério organizam suas ações em favor do bem estar coletivo: desde o ano 2000, Ivanildes Teixeira de Sena atua como Arte Educadora na Fundação da Criança e do Adolescente do Estado da Bahia [FUNDAC].

Quando indagada sobre a principal contribuição recebida por usa atuação com crianças e adolescentes em conflitos com a Lei, responde sem pestanejar: “humanidade e a minha formação familiar me deu essa base no amor e na reciprocidade, ouvi na minha casa que a gente nunca poderia negar algumas coisas, dentre elas, alimento e respeito. E trabalhar no socioeducativo é muito desafiador porque a gente tá entre os valores e a moral, a moral e a lei”.

 

Como ela mesmo se apresenta, é “mulher negra de corpo encapoeirado”, tendo construído, a partir deste tema, sua dissertação de mestrado em Crítica Cultural [UNEB] – que deverá ser publicada como livro – considerando os limites e tensões existentes entre as relações étnico raciais negras, o gênero feminino e as sexualidades dissidentes na Cultura da Capoeira Angola. E assume, “a Capoeira tomou o mundo do meu mundo”. Curiosamente, foi apresentada à essa cultura no interior da Bahia por um paulista, nomeado Sansão e nascido em IlhaBela/SP. Discípulo do Mestre João Pequeno, foi ele quem o apresentou à Nildes, que passou a participar de seu programa social realizado em Fazenda Coutos – na periferia de Salvador/BA.

Como não acreditamos em coincidências, o fato do texto onde ela é destaque ser publicado no domingo 23 – que de acordo com o músico Jorge Ben, é dia de Jorge – é uma aláfia [confirmação]. Candomblecista, traz consigo a energia de Exu e Ogum, o que lhe credibiliza a fazer enfretamentos indispensáveis, tais como, aqueles que em 2010 implicaram na criação de um núcleo étnico racial negro na Parada Gay da Bahia, que existia desde 2002. Além disso, é uma das componentes e realizadoras da IV Caminhada Lesbi de Salvador/BA – que acontecerá no próximo dia 30 de agosto.

A primeira Edição da Caminhada Lesbi da capital baiana aconteceu em 2023 e, sobre ela, a Protagonista nos diz que esse movimento “é mais uma ousadia, é desafiador porque nós colocamos recursos próprios pra ela acontecer, mas com ela mostramos existimos, estamos aqui!”. E, sobre a importância de sua participação na Edição dedicada à visibilidade Lésbica do Editorial Mulheres em Movimento, afirma que sua voz existe para somar com outras tantas, “a minha vida particular é privada, mas o meu lugar político é público e é um lugar de fortalecimento à história de outras mulheres, dizendo que somos, podemos e escolhemos”.

Com isso, concluímos a penúltima publicação desta Edição, agradecendo a você que tem nos acompanhado ao longo destes domingos de Agosto. À propósito, informando-lhe que os textos onde o Projeto Documentadas e Adriana Barbosa são Protagonistas serão publicados em 29 de agosto – dia nacional da visibilidade Lésbica. E, também, fazendo o convite pra que você visite e siga o perfil @mmovimento7 no Instagram. Nos encontraremos no último fim de semana deste mês, até lá!

Cati Sacramento
foto Cati Sacramento
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