A cabeleireira Aline Alves da Silva, 38, afirma ter vivido três anos de “terror” ao lado do ex-marido nos Estados Unidos. Diz que era dopada, abusada enquanto estava inconsciente e filmada para venda de conteúdo na internet. Acusa também um casal de tios do ex de participar dos crimes.
“Eles me dopavam e me envenenavam. Enquanto eu estava inconsciente, abusavam de mim e gravavam para comercializar”, relatou.
Denúncias e falta de resposta
Mãe de três filhos, Aline voltou ao Brasil há cinco meses e vive em São Paulo. Morou sete anos nos EUA, três deles com o acusado. Conta que começou a passar mal um mês e meio após morarem juntos: desmaios, vômitos, queda de cabelo e dormência nos dedos. Só descobriu o motivo ao sair de casa: “Estava sendo dopada, abusada e comercializada na internet”.
Nos EUA, registrou ocorrência e ficou cinco meses em abrigo com os filhos. Segundo ela, o caso tramitou na vara de família, não na criminal. “Acho que engavetaram porque sou latina.” Procurou o consulado brasileiro, mas diz não ter recebido apoio. No Brasil, denunciou à Polícia Civil em janeiro. O caso foi para a Polícia Federal e ainda não teve andamento.
Aline afirma que o ex, que permanece nos EUA, invadiu suas redes sociais cinco vezes para apagar relatos sobre o caso. Diz ainda que os tios dele fizeram ameaças: “Falavam que iam tirar meus filhos e que sempre saberiam onde eu estava”.
Exposição sem consentimento
O caso expõe um problema recorrente: divulgação de imagens íntimas sem autorização, muitas vezes por parceiros. A professora Catarina Lima [nome fictício] passou por situação parecida há dez anos. Após terminar um namoro à distância, teve fotos íntimas vazadas em um grupo de WhatsApp. Recebeu mensagens de assédio de vários estados. “Tinham fotos de mulheres dormindo, nuas. Eles se vangloriavam”, conta.
Grupos públicos em redes sociais com títulos como “Casados mostram esposas” e “Minha esposa” reúnem milhares de membros. Há pedidos explícitos por imagens e relatos de comunidades privadas no WhatsApp com conteúdo mais explícito.
O que diz a lei
Para o delegado Gabriel Cipriano, do Nercca, relação conjugal não afasta crime sexual. Dopar a vítima configura estupro de vulnerável, art. 217-A do Código Penal. Gravar e divulgar imagens íntimas sem autorização também é crime. Quem compartilha pode responder por divulgar cena de estupro de vulnerável.
O advogado Liberato Menezes, professor de Direito Penal, explica: “Existe estupro marital. A relação conjugal não dá direito a ato sem consentimento”. Se há vulnerabilidade, a pena vai de 8 a 15 anos.
Dados
A violência contra mulheres no exterior cresceu 4,8% entre 2023 e 2024.








