Mulheres em Movimento: Oraide da Cunha

A III Edição do Editorial Mulheres em Movimento entra em contagem regressiva para concluir seu ciclo, este ano, excepcionalmente, com publicações nos meses de abril e maio. Nela, apresentamos um pouco da trajetória de vida de Protagonistas cardosenses e nomes como, Raimunda do Poço, Raimunda de Zeca Cacete, Reizinha do Gavião, Professora Celina, Dona Mira da Fazenda Santa Cruz e dona Lulinha Parteira representam tantas outras notáveis, inclusive, citadas pelo público leitor.

A Protagonista do penúltimo número desta Edição – que não nasceu, em Antônio Cardoso/BA, mas, tornou-se cidadã cardosense ao receber da Câmara Municipal de Vereadores o título honorífico, em 1981 – é natural de Jacobina/BA e transformou-se em uma das pessoas mais respeitadas e importantes para o desenvolvimento social no município: a Professora Oraide. Nascida em 1941, é mãe de Kaline e avó de Lara, e referência para a comunidade católica local. Teve seu primeiro contato com o território em 1966, quatro anos após a sua emancipação política, sendo memória viva das transformações sofridas por ele.

Durante o ano final de sua formação no Curso de Magistério, trabalhou em uma Farmácia, onde conheceu e fez amizade com Luís Cardoso – que anos depois tornou-se Prefeito de Antônio Cardoso – e, a convite dele, foi trabalhar como Professora no Distrito de Santo Estevão Velho – onde atuou durante sete anos. A partir daí, prestou serviços em vários cargos públicos na área da Educação, incialmente, tornou-se Delegada Escolar – uma Coordenadora Pedagógica, na atualidade – Supervisora da merenda escolar, Diretora, Vice-Diretora, chegando a atuar como Secretária Municipal de Educação, ininterruptamente, durante as gestões dos Prefeitos Antônio Santiago [nos dois mandatos], Luís Cardoso, Jaime Pinheiro e Evilásio Lobo.

A partir da sua atuação como Delegada Escolar, em 1973, tomou uma decisão que mudaria definitivamente os rumos da história da Educação no município: “em 1974, eu comecei a pensar em um Ginásio em Antônio Cardoso, porque os alunos daqui completavam o curso primário e não tinham mais pra onde ir, porque não tinham condições financeiras pra ir pra Feira de Santana ou pra outro lugar. Aí eu disse, vou fundar um Ginásio, como é que deixa tanta criança parar?”.

Em conversas sobre o tema com seus pares, encontrou em Roque Cardoso – Prefeito à época – a informação fundamental que transformaria sua ideia em realidade: “Roque foi que me informou que em Bonfim de Feira tinha um Colégio pela CENEC. Eu fui lá, conversei com a Diretora e a própria me levou à Salvador. Lá conversei com o Secretário, que disse que podia preparar a documentação, que em 1975 o Colégio funcionaria. E assim foi feito, em 1975 foi inaugurado o Ginásio Professor Fernando Barreiro Dantas”. Antes de dar segmento, vale destacar uma curiosidade afetuosa; a Professora Oraide e o ex-Prefeito Roque Cardoso estudaram juntos no Ginásio, no Colégio Estadual de Feira de Santana.

O sonho de ver as crianças cardosenses dando continuidade aos estudos – cursando as séries que hoje conhecemos como Ensino Fundamental I – estava realizado, mas não foi fácil: “quando eu comecei com a CENEC, muita gente me chamava de doida, que aqui os alunos não tinham condição de comprar um livro, um lápis, eu comprei livro, eu comprei farda, eu dei tudo para os alunos, aqueles que precisava. Eu pedia aos fazendeiros, eles diziam que nunca viram uma mulher tão pidona, mas eu pedia pra ajudar porque os alunos não tinham condição de fazer e eles me ajudaram muito. A Prefeitura não ajudava em nada, eu fazia leilão, rifa, fazia brincadeiras com os meninos pra eles adquirirem dinheiro pra pagar os Professores. Quando não tinha o dinheiro completo, eu tirava do meu”.

Nos anos seguintes, constatou que também era necessário a formação no segundo grau, especificamente, no curso de Magistério, já que, “os alunos terminavam o Ginásio e paravam também”. Assim, durante uma visita de Antônio Carlos Magalhães [Governador baiano à época], para celebrar o aniversário de emancipação política do município em 1981 – onde recebeu junto com a Professora Oraide o título de cidadão cardosense – ela reuniu-se com ele, estudantes e demais colegas para solicitar a fundação de um Colégio com tais especificidades. Enquanto discursava, o político garantiu que o Colégio seria construído, o que aconteceu e em 1982 foi inaugurado o Colégio Estadual Antônio Carlos Magalhães – hoje transformado em Colégio Estadual do Campo de Tempo Integral Genivaldo de Almeida Brandão.

Nesse sentido, seu empenho em favor dos processos de implantação da Educação Básica é a maior contribuição oferecida por ela, é a sua maior declaração de amor por um  município ainda tão vulnerável economicamente, e é impossível não se emocionar com a sua emoção, ao falar com os olhos lacrimejando que “sinto o maior orgulho quando vejo falar que os alunos de Antônio passaram em um vestibular, saber que fui eu que dei inicio a tudo isso, fui eu que dei o primeiro ponta pé pra acontecer isso”. E, na grandeza de quem sabe que as intervenções como as que realizou são fundamentais para a emancipação das pessoas, afirma de modo assertivo “não me arrependo de nada disso, viu, se tivesse que fazer de novo, eu fazia tudo de novo e em qualquer lugar que não tivesse Ginásio”.

Com essa história inspiradora, anunciamos que a III Edição vai caminhando para o fim. Mas, antes que acabe, é preciso informar à você, que tem nos acompanhado semanalmente, que o Editorial Mulheres em Movimento ganhou um perfil no instagram:  @mmovimento7. E, além de te convidar a nos seguir, saiba que, em agradecimento a parceria estabelecida entre nós, cabe à você escolher a Protagonista do domingo que vem. Aquela que for mais citada nos comentários da publicação integrará a lista das cardosenses notáveis, não deixe de fazer a sua sugestão, tá?!  No mais, é agradecer à todas as pessoas que são responsáveis pela realização deste Projeto, principalmente à quem nos lê. Domingo que vem ainda tem mais, até lá!

Paloma Santana