A primeira publicação da III Edição do Mulheres em Movimento, que celebra Protagonistas cardosenses, apresenta uma guardiã da Cultura Popular, conhecida como Raimunda do Poço. Seu nome é referência quando o assunto é Samba de Roda, entre outros, por ser articuladora da Casa de Samba Raízes das Umburanas, localizada na Comunidade Quilombola do Poço. É Pedagoga, Cordelista e Professora aposentada da Rede Municipal de Educação de Antônio Cardoso.
Ela que se denomina “realizadora” da Cultura Popular e, há 18 anos, cedeu parte de sua residência para que pudesse ser acomodada a Casa do Samba, fundada na Sede, em 2011, mas desarticulada pela inconstância das atividades e por funcionar em um imóvel alugado. Esse é um projeto da Associação de Sambadores e Sambadeiras do Estado da Bahia [ASSEBA], sediada em Santo Amaro, que à época contemplou Antônio Cardoso e outros onze municípios, oferecendo instrumentos musicais, cadeiras e computadores.
Na Casa de Samba Raízes das Umburanas acontecem, gratuitamente, as Oficinas de violão, viola, cavaquinho e percussão, para crianças e jovens. Os atuais Oficineiros – Felipe, Messias e Gabriel – foram aprendizes do projeto, tendo como instrutor o músico Roque da Viola – “ele ensinou os meninos a tocar, é uma pessoa excelente que sempre nos ajudou, é autodidata e detentor da Cultura do Samba de Roda”. Nela, também, estão sediados os Grupos de Samba Raízes Culturais e de Sambadores Mirins, além do Cambuí do Sertão – grupo de forró.
Durante a conversa, confessou, “meu sonho é que não morra o que eu passei aos jovens e as crianças, que permaneça e procure passar a diante. Quem eu tenho certeza que não vai deixar morrer é Erica e Gabriel, essas duas pessoas internalizaram mesmo o que é o Samba de Roda, porque tem muitos que vão estudar e trabalhar fora e esquece, outros só gostam de sambar e não faz nada pra que o Samba vá em frente”.
A Protagonista de hoje também tem a fama comprovada de produzir bolos, doces, cocadas, beiju, vatapá, caruru e outras delícias, a freguesia se estende por toda região e, quem deseja, pode encomendar. Quando perguntada com quem aprendeu mais essa arte, revela que “foi em casa, minha mãe fazia bolo de palha e eu fazia junto, desde criança aprendi a fazer, mexer farinha, raspar mandioca, trabalhar na roça”. Da infância e da vida na roça há outras lembranças, sobretudo, das dificuldades, “eu andava 14km, diariamente, pra ir à Escola, mas nunca deixei estudar. No ensino médio fui estudar no Gastão Guimarães e me formei em Magistério. O ensino superior cursei quando já era Professora da Educação Básica”.
É importante destacar que o Poço – que “já foi chamado de Gravatá e Cruzeiro” – uma das doze Comunidades Quilombolas certificadas do município, situado na região noroeste do território – é considerado o celeiro da cultural local, “aqui vem muita gente, da Alemanha e outros países, de Universidades…as pessoas sabem que a nossa maior referência é o Mestre Bule Bule”.
Assim como seu Mestre, Raimunda é reconhecida como Cordelista, tendo publicado o título Retalhos em Cordéis, com perspectiva de outros lançamentos e afirma que “os cordéis que eu faço tem a ver com meu cotidiano”. Sua trajetória de vida é inspiradora e nos deixa um importante aprendizado, “tem muita gente que, às vezes, gosta do Samba procurando algum recurso, a gente não visa só isso. O recurso, nós precisamos, porque o Samba não vai viver de vento, porém a nossa missão principal é salvaguardar, promover e divulgar o Samba de Roda”. Pelo seu empenho em favor da Cultura Popular, é reverenciada por seu povo conterrâneo e não poderia estar de fora deste Editorial.
No próximo domingo, apresentaremos a segunda história de mais uma mulher notável, não perca!









