Mulheres em Movimento: Maria da Cruz

Chegamos à metade de Maio, mês em que o Editorial Mulheres em Movimento celebra as mães cardosenses, e hoje apresentaremos a terceira das cinco Protagonistas que complementam a Edição III – iniciada em Abril, no contexto das comemorações do aniversário de emancipação política do município de Antônio Cardoso/BA. Por aqui já foram apresentados nomes como Raimunda do Poço, Raimunda de Zeca Cacete, Reizinha, Professora Celina e Dona Mira. Tão notável quanto elas, é a Protagonista de hoje, registrada como Maria Jorge da Cruz e mais conhecida como Mãe Lulinha.

No auge de seus 97 anos de idade, vive na Comunidade Quilombola do Gavião, onde nos recepcionou para a realização de sua entrevista. Nascida em 1929, quando o território ainda pertencia ao município de São Gonçalo dos Campos/BA, é considerada “Mãe de umbigo” de muitas das pessoas nativas do lugar. Para referir-se à sua função como Parteira, ela usa a expressão “pegar menino” e tem muitas histórias pra contar sobre suas atuações em inúmeros partos que realizou ao longo da vida.

Quando perguntada com quem aprendeu a atuar como Parteira respondeu que desde mocinha ajudava a mãe, dona Maria Jorge, que também “pegava menino” na mesma localidade. Inclusive, dos “doze filhos vingados e duas percas” de dona Lulinha, a maioria de seus partos foram feitos por sua mãe e, na ausência dela, por outra Parteira chamada Mira. Trata-se de uma prática realizada no município até a primeira metade de década de 1980, quando não havia a oferta de serviços médicos hospitalares como atualmente.

Como elas, haviam tantas outras que percorriam o território a pé ou a cavalo, à qualquer hora do dia ou da noite, para fazer partos: “eu era muito medrosa, os homem cansava pra eu montar no cavalo, mas eu não montava, eles vinha em dois, eu dizia vai um adiante e outro atrás e eu vou no meio andando”. Dentre elas, também dona Zabé, mãe do Mestre Bule Bule, autor da poesia A Parteira, onde a descreve em um dos versos: “mãe é daquelas Parteiras sem curso, do interior, mas dá lição em Doutor, sabe mais que Enfermeira, zela bem do inocente, cuida da parturiente, não quer nem que diga “oi”, e só quer por recompensa que um passe e diga bença, pra dizer Deus te abençoe”.

As Parteiras e as Rezadeiras são símbolos da sabedoria e da fé popular, cujas atuações foram fundamentais para o cuidado de pessoas e grupos em condição de vulnerabilidade socioeconômica. Raras na contemporaneidade, seus saberes tem estado em processo de apagamento, já que, entre outros, não tem havido interesse das gerações atuais em conservar esses Patrimônios Imateriais da Cultura Popular. Além disso, a predominância das religiões evangélicas protestantes tem contribuído para que essas práticas tradicionais sejam esquecidas. Como exemplo disso, a própria entrevistada, que além de Parteira, também “rezava”, mas, revela que “depois que conheceu a verdadeira palavra de Deus, arriou de fazer essas coisas”.

Não há registro de Educação formal em sua trajetória, no entanto, durante a conversa cita o aprendizado com um Professor denominado Lisboa que, conforme ela nos disse, “veio corrido mode à Guerra” e dava aula em Santo Estevão Velho: “era um Professor que era bom mesmo, o menino que ia com ele, ou aprendia ou ele matava na palmatória”. Sobre este tema, o Historiador Telito Rodrigues foi consultado e afirma que, a partir das pesquisas realizadas, “acredita-se que ele era um revolucionário, saiu de Salvador e se estabeleceu em Santo Estevão Velho e, na oportunidade, Olavo Lobo criou uma Escola, ao lado da Igreja, onde ele ficou lecionando”.

A conversa com dona Lulinha revela aspectos singulares e traz memórias quase centenárias sobre o território cardosense. A partir dela, com a citação de fatos e sujeitos, é possível reconstituir períodos históricos sobre os quais ainda não há tantos registros sistematizados. Assim, cumpre-se um dos objetivos deste Projeto que quer, através de suas Protagonistas, contar as histórias deste lugar, e até aqui, já referenciamos as Comunidades Poço, Sede, Gavião, Lagoa, Paus Altos. Fica, então, o convite para que você continue nos acompanhando, nesses dois últimos domingos de maio. Até lá!

Paloma Santana