Neste dia em que celebramos as Mães, destaca-se a trajetória de vida de uma Protagonista que simboliza muito bem a data: mulher forte, dedicada à família e, que soube se reinventar diante de tantas batalhas cotidianas. Dona Mira, como é mais conhecida, além de ser uma simpatia é Sambadeira e fez do trabalho na roça a arte de sua sobrevivência, tanto que jamais atuou profissionalmente em outra atividade. No quintal de sua residência cultiva ervas para chá e banho, hortaliças, legumes e vários tipos de pimentas, além disso, produz cocadas, xaropes e licores de sabores variados.
Seus produtos, assim como os de outras Agricultoras e Artesãs, tem estado disponível para a venda durante a realização do Circuito de Feiras e Vilas Temáticas Sazonais de Fomento ao Empreendedorismo e à Economia Solidária, que integra o Projeto Quilombo Empreendedor, promovido pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Obras. Apesar de não ser alfabetizada, sabendo apenas assinar seu nome, não se passa com o dinheiro durante sua atuação enquanto feirante e, de tudo que produz, sem dúvida, o licor de cajarana é o mais apreciado pela pessoa que vos escreve.
E, se a pessoa que vos escreve já está inserida na narrativa, há espaço para que possa ser contada a relação existente entre ela e a Protagonista de hoje. Dona Mira já havia sido entrevistada por mim em 2017, durante as gravações do Documentário LICUTIXO: um bordejo por entre as memórias do Mestre Bule Bule e, na oportunidade, falou sobre os assuntos ligados ao Samba de Roda. Mas, enquanto gravava sua entrevista atual, descobri que nossa relação tem raízes mais profundas.
Antes, é preciso informar à você que nos acompanha, que nesta III Edição do Editorial Mulheres em Movimento – em que celebramos as Protagonistas cardosenses – sou mais do que a Jornalista que elabora os textos e coordena este Projeto, estou também umbilicalmente ligada ao território, já que, meus ancestrais diretos são nativos do lugar. Inclusive, o município tem o nome de Antônio Cardoso em referência à uma antiga liderança local que, por acaso, é meu bisavô paterno.
As histórias são incontáveis e as “coincidências” quase inacreditáveis. Dona Mira, que nasceu e se criou na localidade conhecida como Cabana Velha, revelou que, quando criança, havia morado na casa de Antônio Lopes – meu bisavô materno; que participou de sambas e rezas na casa de Dionizia Medeiros – minha avó materna; e, tendo nascido em 1951, cresceu junto com Helena Lopes – minha mãe.
Ainda sobre os vínculos estabelecidos entre nós – o que torna este texto absolutamente pessoal – fui também Professora de História de sua neta, Thayná Almeida – que hoje atua como Diretora Municipal de Desenvolvimento Econômico e é responsável pela realização da Feira que tem fortalecido o trabalho de mulheres produtivas, a exemplo de sua avó. Por ela venho nutrindo muita admiração, à sua dedicação, como a que teve aos estudos, o que implicou na sua Graduação no Curso de Direito, pela Universidade Federal da Bahia.
Assim como na infância, a vida adulta não foi fácil. Mãe de quatro filhos e duas filhas – atualmente, já sem pai, mãe e irmã[o]s viva[o]s – tornou-se viúva aos 48 anos e sobre as dificuldades para cuidar da família afirma que “fui ganhar na manga dos outros, eu ainda não era aposentada”. Quando perguntada sobre o que significa “trabalhar na manga dos outros”, ela diz que é “rancar velame, capinar pasto, limpar pasto, ciscar o velame que a gente capinou, cavar cova na roça dos outros, plantar feijão, milho, batata, aipim. A gente fazia roça sábado e domingo pra gente, trabalhava na manga dos outros segunda, terça, quarta e quinta, dia de quarta era renda e quando era dia de sexta-feira eles fazia pagamento”.
As dificuldades para garantir a alimentação das crianças eram muitas, nesse sentido, relembra que “quando a gente não tinha o dinheiro, tinha que aguentar, beber cariru, bredo, língua de vaca, fazia aquele caldo e dava pra eles beber, até ter o dinheiro. Relava mandioca de caco, espremia de pano, deixava sair o fortumo, depois a gente espalhava assim e mais tarde fazia o beiju e dava”. A situação descrita por ela revela coisas que aconteciam até pouco Tempo nas profundezas do município, sobretudo, sobre as questões que envolvem a mão de obra que atua na produção agrícola.
Assim como todas as Protagonistas apresentadas até aqui nesta III Edição, também percorria distâncias a pé, principalmente, para comprar produtos alimentícios: “a gente ia pra Santo Estevão comprar umas coisinhas botava na cabeça e vinha andando…não tinha carro e o dinheiro que tinha não dava pra pagar”. É importante destacar que a distância entre a Fazenda Santa Cruz – onde vivia com sua família – e o município onde ia fazer compras totaliza quase 30km, considerando a ida e o retorno. De tantas lutas pela vida, certamente, seu maior triunfo foi o diagnóstico, o tratamento e a cura do câncer de mama.
Mas, nem só de dureza se constituiu a vida dela. As alegrias estão intimamente ligadas às participações em rodas de Samba, bem como, àquelas que filha[o]s e neta[o]s lhe trazem, principalmente, quando se notabilizam pelo bom desempenho nos estudos. Nesse sentido, é imprescindível que seja explicitado que seu filho caçula, o Geógrafo Ozeias de Almeida Santos, Doutor pela Universidade de São Paulo, tornou-se referência para os estudos sobre Comunidades Remanescentes de Quilombos, pela qualidade das pesquisas desenvolvidas, mas, sem dúvida, pelo exemplo de dedicação e persistência que encontra em sua Mãe – a quem se refere como “Doutora”.
Assim, citando tantas mulheres notáveis, celebramos as Mães, sobretudo, àquelas que enfrentam diariamente desafios, dentre outros, pela formação e qualificação intelectual de filha[o]s e pela garantia do acesso a saúde. Para além disso, permanece o convite para que você continue acompanhando as publicações nos próximos domingos de maio, e partilhando essas histórias entre seus pares. Vamos em frente!









