A queda nos preços do petróleo após os Estados Unidos e o Irã anunciarem um acordo para encerrar a guerra deve ser limitada, dizem analistas, já que ainda há incertezas em torno do estreito de Hormuz e do comportamento do governo de Israel. Além disso, existe a percepção de que as cotações internacionais não devem voltar tão cedo aos patamares anteriores ao início da guerra, quando estavam a US$ 70.
O estreito de Hormuz integra uma rota marítima por onde passam cerca de 20% do petróleo e do gás natural comercializados globalmente. O bloqueio causado pela guerra desencadeou uma crise de abastecimento que se espalhou pelos mercados de combustíveis, alimentos, fertilizantes e frete marítimo, trazendo impacto para uma série de produtos pelo mundo.
Nesta segunda-feira (15), o barril atingiu o menor preço em três meses. O petróleo tipo Brent, referência internacional, fechou em queda de 4,55%, a US$ 83,36. Durante o conflito, a cotação chegou a superar os US$ 110.
“Não creio que caia muito”, diz o ex-diretor-geral da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis) Décio Oddone. “Tem muita água para rolar por essa ponte, muita insegurança, muito estoque para recuperar.”
Para o presidente do IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás), Roberto Ardenghy, a cotação deve seguir entre US$ 80 e US$ 90 por barril no médio prazo, caso o fim do conflito seja confirmado.
“Primeiro, é preciso saber se o compromisso é firme, se Israel vai acompanhar completamente [eventual acordo de paz]”, afirma ele. “O segundo ponto é a velocidade do retorno. Tem que fazer processo de limpeza do estreito de Hormuz? Pode ter mina lá, é cenário absolutamente crítico para grandes petroleiros.”
Ardenghy lembra que a alta do petróleo viabilizou a expansão de fornecedores alternativos no mercado, como os Estados Unidos e a Venezuela, que ampliaram a produção desde o início do conflito. Assim, o mercado parece estabilizado nesse patamar.
Bruno Cordeiro, analista de inteligência de mercado da Stonex, diz ver o acordo como uma solução parcial, já que ainda restam negociações envolvendo o programa nuclear iraniano, o que pode gerar volatilidade no curto prazo. “Ao longo do médio e longo prazos, devemos observar preços mais sustentados.”
A consultoria Argus aponta ainda que não há alívio imediato para o abastecimento na Europa e na Ásia, que têm dificuldades no suprimento de derivados como querosene de aviação e diesel, no primeiro caso, e de petróleo, no segundo.
Após a reabertura definitiva do estreito de Hormuz, diz a consultoria, navios com produtos da região devem levar entre seis e oito semanas para chegar aos seus destinos. “Haverá um déficit duradouro nos estoques comerciais de derivados de petróleo na Europa, tornando os preços mais sensíveis a eventuais interrupções de oferta”, escreveu a Argus.
Apesar do cenário incerto, o fim do conflito e uma menor volatilidade nos preços das commodities são positivos para a economia e podem ajudar no controle da inflação no Brasil, dizem analistas.
“A notícia é boa, teremos deflação no setor, o que tira pressão do Banco Central”, diz a economista Zeina Latif.
Zeina agora vê a possibilidade de o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) terminar 2026 dentro do teto da meta de 4,5%, mas prevê que as expectativas do mercado ainda trarão uma visão cautelosa.
“Mas não sabemos se o petróleo volta ao preço pré-guerra, pois houve destruição de infraestrutura. Apesar de, do outro lado, outros países aumentarem a exportação, como o Brasil”, completa a economista.
Para Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados, o IPCA ficaria dentro do teto apenas se os preços entrarem em queda no país (deflação), algo que ele não prevê.
“O problema não é mais o petróleo, é o El Niño, que deve afetar os preços no segundo semestre e no ano que vem. Ao menos, com o fim do conflito, se reduz a pressão em torno dos preços dos fertilizantes”, diz Vale.
O fenômeno do El Niño, que teve seu início confirmado na semana passada, ameaça a produção agropecuária e pode pressionar os preços dos alimentos até o final do ano.
No acumulado de 12 meses até maio, a inflação ficou em 4,72%, ultrapassando o teto da meta da autoridade monetária. Segundo o boletim Focus, que compilou estimativas de economistas antes do acordo entre EUA e Irã, o índice terminaria este ano em 5,30%, e a Selic em 13,75%.
Antes de o conflito começar, essas expectativas estavam em 3,91% para a inflação e em 12% para a taxa básica de juros.
Naquela época, o Itaú projetava o barril de petróleo entre US$ 60 e US$ 65. Atualmente, a instituição projeta o preço do óleo na faixa de US$ 85 no fim de 2026 e US$ 75 para o fim de 2027 -o banco ainda não reajustou a previsão para o indicador após o anúncio do acordo de paz.
A analista líder do setor de óleo e gás do Itaú BBA, Monique Greco, estima que o patamar do petróleo pode mudar após o fim da guerra no Oriente Médio. Ela projeta um cenário mais resiliente para a commodity, sem que os valores recuem ao patamar do fim de 2025.
“Projetávamos um preço de petróleo abaixo de US$ 60 ou até abaixo de US$ 50, porque teria um excesso de oferta, o que justificaria esse preço mais baixo. Mas isso não aconteceu, dada essa questão do conflito”, afirma Laura Pitta, economista do Itaú Unibanco.
Mesmo que não caia mais, analistas apontam que o preço do óleo deve estabilizar, o que já é um sinal positivo ante a recente volatilidade.
O real impacto da queda do petróleo no Brasil depende da Petrobras, que não repassou todo o aumento no petróleo -a estatal responde por cerca de 70% do mercado de diesel no Brasil, combinando produção própria e importação. Assim, o efeito positivo também deve ser reduzido.
Segundo o site Global Petrol Prices, o Brasil é um dos países com menor alta nos preços de gasolina e diesel após o início da guerra. Foram 4,9% de alta na gasolina e 13,6% de alta no diesel. Nos Estados Unidos, por exemplo, gasolina e diesel subiram 36%.
O cenário reflete o programa de subvenção criado pelo governo Lula, que garantiu ressarcimento a empresas que se dispuseram a vender por um preço menor. A Petrobras foi a primeira a aderir ao programa e repassou imediatamente o desconto às distribuidoras de combustíveis, ajudando a conter a disparada de preços das primeiras semanas após o início da guerra.
Para o Itaú BBA, o preço do óleo diesel praticado pela estatal atualmente está aquém do que poderia. A política de preços da Petrobras tem sido, considerando os subsídios a que tem direito, cerca de 12% abaixo da referência praticada pelos importadores ao se desconsiderar o efeito dos subsídios.
“A Petrobras precisa reajustar [o diesel] para cima. Apesar do subsídio, [o preço] ainda está abaixo da faixa de referência, então ainda existe um gap”, afirma Monique. “Esse subsídio ajuda e foi positivo para a Petrobras, mas, como a dinâmica internacional ainda está muito nervosa, ainda tem um espaço que faria sentido para a Petrobras considerar um reajuste.”








