Ex-candidata a miss relatou sensação de estar em gaiola antes de ser encontrada morta

A maquiadora e modelo Ana Luiza Mateus, 30, havia relatado a amigos que o namorado, Endreo Lincoln Ferreira da Cunha, tinha ciúmes das fotos que ela publicava nas redes sociais. Dias antes de ser encontrada morta nesta quarta-feira, 22, ela disse estar em uma “gaiola de ouro”. Segundo familiares, na noite anterior ao crime Ana Luiza sofreu uma agressão e chegou a comprar passagem para voltar à cidade natal.

A polícia informou que Ana Luiza foi encontrada morta na área comum de um condomínio na Barra da Tijuca, zona sudoeste do Rio, após cair do 13º andar. Vizinhos relataram que o casal brigou durante toda a madrugada e que, por volta das 5h, ouviram um barulho forte.

Endreo Lincoln, 35, foi preso em flagrante e levado à Delegacia de Homicídios da Capital. Horas depois, foi encontrado morto na cela. A Polícia Civil afirma que ele cometeu suicídio por asfixia com um pedaço de roupa. Ainda segundo a polícia, Endreo assumiu ter brigado com Ana Luiza, mas não confessou o crime formalmente. Ao ser preso, apresentou documento do irmão.

Amigos contaram que, nas últimas duas semanas, Ana Luiza deu sinais de viver um relacionamento abusivo. Ela reduziu as publicações nas redes sociais, onde tinha 37 mil seguidores, e chegou a dizer a uma amiga que estava em uma “gaiola de ouro”, o que foi interpretado como indício de cárcere privado.

Endreo tinha mandado de prisão em aberto e registros por injúria e ameaça no contexto de violência doméstica em Mato Grosso do Sul, seu estado de origem. Havia contra ele duas medidas protetivas em favor de ex-namoradas.

O jornalista João da Cruz Neto, amigo de Ana Luiza, afirmou que ela nunca relatou agressões e até elogiava o namorado. O único sinal era a menor presença online. Segundo ele, Ana Luiza disse: “Amigo, ele é um pouco ciumento, não gosta que eu fique aparecendo, mas até o feriado vou voltar a postar de novo”.

Natural de Teixeira de Freitas, no sul da Bahia, Ana Luiza conheceu Endreo no Carnaval do Rio, em um camarote da Sapucaí. Ela fazia temporadas no Rio para tentar carreira de modelo e, no Carnaval, trabalhava para uma revista digital de moda. O casal morava junto havia dois meses e compartilhava fotos de viagens nas redes sociais.

Familiares e amigos confirmam relatos de testemunhas de que as agressões começaram na noite de terça-feira, 21. Por volta das 23h, Ana Luiza ligou para a mãe dizendo ter sido agredida. A mãe pediu que ela voltasse para a Bahia no dia seguinte. Ana Luiza aproveitou uma saída de Endreo, arrumou as malas e comprou a passagem pelo celular. “Quando ele voltou e viu as malas, pode ter sido o estopim”, disse João, que acompanha a família em Teixeira de Freitas.

João arrecadou dinheiro nas redes sociais para trasladar o corpo. O velório ocorreu na tarde de quinta, 23, na Câmara de Teixeira de Freitas, e o sepultamento foi marcado para a manhã de sexta, 24.

Amigos da adolescência contam que Ana Luiza teve uma infância reclusa por causa de uma doença semelhante ao lúpus. Só aos 17 anos, após uma cirurgia, passou a ter mais convívio social. Casou aos 21, formou-se em psicologia e atuou como maquiadora em eventos na cidade. Após o divórcio, há três anos, passou a investir na carreira de modelo e influenciadora, mostrando rotina de treinos e viagens. Também se apresentava como empresária de um produto para emagrecimento.

Ela foi candidata a Miss Cosmo Bahia, concurso internacional que teve sua primeira edição em 2024. A organização publicou nota afirmando que “o caso convoca a uma reflexão urgente sobre a violência contra a mulher no Brasil”.

“Era uma batalhadora que foi atrás de um sonho. Estava começando a melhorar, com desfiles maiores e propostas robustas. O que dilacera a gente é que ela ainda tinha muitos sonhos”, disse João.

Foto: Reprodução/Redes Sociais