A publicação deste domingo encerra a III Edição do Editorial Mulheres em Movimento e nela foram apresentadas histórias de Protagonistas cardosenses, a partir da parceria estabelecida com a Prefeitura Municipal de Antônio Cardoso/BA – que tem promovido neste mês de Abril diversas ações celebrativas, como essa, para comemorar os 64 anos de emancipação política municipal.
Nas publicações anteriores, conhecemos um pouco sobre as trajetórias de vida de duas Professoras, Cordelistas, curiosamente, registradas com o mesmo nome: Raimunda do Poço – Agente Cultural e guardiã do Samba de Roda local – e Raimunda de Zeca Cacete, dentre outros, compositora do hino oficial do município. Além da repercussão positiva entre elas, o Mestre Bule Bule também nos contactou, surpreendendo-nos ao se declarar leitor do Editorial, classificando-o como “uma riqueza que bota Antônio Cardoso no seu devido pedestal, tratando de valorizar primeiramente a sua gente”.
A mensagem enviada por ele já teria um valor imensurável porque, além do que representa para a Cultura brasileira e pelo reconhecimento internacional de sua Obra e Performance, ele é nativo, sendo sua estrela mais brilhante. É referência para todas as Protagonistas desta III Edição e, apesar de ter se tornado cidadão do mundo, jamais se desconectou de suas raízes e de seu povo. Sobre o Editorial, afirma que “o que está sendo feito traz à tona meios de revelar fatos que estavam nas entrecapas da história do município”.
Feitas as imprescindíveis considerações, trataremos da Protagonista de hoje, carinhosamente chamada de Reizinha: Mãe de quanto filhos, Avó de duas netas, Artesã, Costureira, Agricultora e Articuladora da Cultura Popular, é nascida e criada na Comunidade do Gavião – uma das primeiras certificadas como Remanescentes de Quilombos no território. Como liderança comunitária tem a missão do “resgate da nossa Cultura que ficou lá atrás, aqui todo ano a gente roubava Reis, o resgate do Reizado aqui na Comunidade é uma coisa bem presente e todo mundo gosta, se não acontecer o povo fica falando “Reizinha, que dia vai acontecer?”.
Das memórias preciosas da infância lembra-se que seu avô, Mané Bento, também nativo da Comunidade do Gavião, “fazia caixão para quem morria e não tinham condições de comprar, ele fazia balaios e monzuá. Nossas crianças hoje não sabem mais o que é o monzuá e era com isso que a gente tirava nosso sustento. Minha mãe, meu avô colocavam comida ali dentro, tapava e colocava debaixo do golfo do tanque, ali os peixes entram, cambotá, marinheira e no outro dia era só tirar”.
Assim como as demais entrevistadas, também ia à pé à Escola, seja nos anos iniciais quando “atravessava a pista pra estudar na Escola Senhor do Bonfim, da Professora Livalda” ou quando foi estudar na Sede e andava 7 km pra ir e mais 7km pra voltar: “tinha vez que a gente ficava cansada e ficava ali na entrada, na venda de Mané da rede e a gente ficava ali sentada esperando…trator, carroça de jegue, caçamba, o que passasse…não tinha carro assim como tem hoje. O primeiro carro que teve aqui que carregava os estudantes era de Tio Ném, um caminhão aberto, aí depois entrou o Prefeito Jaime Pinheiro e conseguiu um microônibus”.
Ainda sobre a dificuldade de deslocamento dentro do município, lembra-se que na época em que cursou o Ensino Médio, no antigo ACM, “tinha a Kombi de s. Alonso que carregava os Professores pra Feira de Santana e tinha vez que a gente disputava o fundo da kombi, quem chegasse primeiro e pulasse no fundo da Kombi, vinha e quem não pulasse ia ter que vim andando”. Com isso, observa-se que as Protagonistas, integrantes de uma mesma geração, reconstituem a partir de suas memórias um contexto histórico em que havia muita vulnerabilidade social.
Das atividades que desenvolve, certamente, o trabalho com o grupo de dança Flor do Quilombo é o mais reconhecido. Trata-se de um grupo composto por crianças e jovens da comunidade local, que tem se apresentado em eventos escolares, institucionais, dentre outros: “começou há seis anos atrás, quando a gente fez um desfile em frente a casa de Mirian e, no ano seguinte, fez aqui em casa e não parou mais. Tem um grupo de desfile e um grupo de dança”.
Assim, com o entusiasmo e a perseverança de Reizinha, nos despedimos do público que nos acompanha desde a Edição inaugural, em 2024, cuja leitura/presença nos inspira a continuar notabilizando histórias de mulheres notáveis. Muitas outras também poderiam ter sido Protagonistas, a exemplo de Dona Mira dos Paus Altos e a Professora Oraide da Cunha – que apesar de não ser nativa dedicou sua vida à Educação cardosense, tendo se tornado uma memória viva sobre o lugar. Agradecimentos especiais àquelas pessoas que se tornaram parceiras deste projeto, especialmente, nesta Edição III. Nos encontraremos muito em breve, até já!









